Crítica
O que escreveram sobre a obra
Quatro textos de apresentação sobre a obra, escritos entre 1982 e 1993.
Formas que não representam nada, mas são
V. Jair Mendes
Diretor do Museu Guido Viaro e coordenador de artes plásticas da Fundação Cultural de Curitiba
1982
O verdadeiro artista revela-se na sua capacidade de criar. A obra de arte baseia-se fundamentalmente no processo de transformar materiais diversos em símbolos que, por suas características e pelo processo de elaboração, determinam um trabalho artístico.
O jovem artista Clécius tem se preocupado em produzir uma obra que o coloque entre os artistas que fazem de sua profissão a razão da própria existência. É verdade que a jornada é longa e às vezes penosa, mas tenho certeza de que o escultor chegará à meta desejada. Ele escolheu um caminho difícil, pois a escultura é uma arte que exige muito do artista, quer no campo da intelectualidade, quer no esforço físico.
Apoiado no seu próprio esforço e talento, Clécius vai surpreendendo a muitos, apresentando sempre peças que chamam a atenção pela qualidade intrínseca e pela técnica apurada. Geralmente voltado para as formas abstratas, com algumas impulsões para figuras decorativas, sua obra é sempre de muito bom gosto. Formas que não representam nada, mas são.
Isso mesmo: as esculturas do Clécius devem ser olhadas como uma peça nova, recriada, a transformação de um pedaço bruto de mármore em obra de arte. Não se deve ter a preocupação de querer adivinhar com o que se parece aquela peça. Ela não parece, ela é.
Na obra de arte começamos por ver aquilo que nos é apresentado diretamente, e só depois perguntamos qual o seu significado e conteúdo. O que vemos exteriormente não tem valor direto: atribuímos-lhe um valor interior, um significado que lhe anima a exterior aparência. Atribuímos-lhe a alma que adivinhamos pelo exterior. Nesse sentido, sua obra não é apenas a forma, a curva, mas constitui a exteriorização da vida dos sentimentos, da alma, do conteúdo do espírito — e em tudo isso constitui o seu significado.
Cada escultura, cuja forma exterior não tem compromisso com a natureza, pois é fruto da necessidade de expressão do artista, nos dá impressão de equilíbrio, leveza, pureza e principalmente exterioriza o talento do escultor.
O jogo das formas em relevos e reentrâncias
Adalice Araújo
Crítica de arte e professora da Universidade Federal do Paraná
Curitiba, 30 de abril de 1982
Guiado pela necessidade de descoberta, com o martelo e o cinzel extrai da pedra o seu segredo e a possibilidade, para o espectador, de uma vasta gama de leituras.
Suas obras, em geral abstratas, caracterizam-se pelo jogo de formas em relevos e reentrâncias, com sugestões reais ou imaginárias que se desenvolvem no espaço num ritmo modular.
Outras vezes joga com a forma básica do losango, nascido da fusão de dois triângulos isósceles unidos pela base, que — apesar de seu aparente racionalismo — tanto podem sugerir os contatos entre o mundo superior e o inferior como assumir a conotação de uma simbologia erótica.
Este simbolismo, apenas sugerido através da geometria de formas, chega por vezes a eclodir numa erupção violenta, como na série de obras que apresentou na 1ª Jovem Arte Sul, de 1981.
No momento, Clécius Coser está trabalhando com esculturas em concreto policromadas, que põem a pensar na parapsicologia, dando a impressão de que consegue trazer à tona arquétipos do inconsciente que se perdem no passado pré-colombiano.
Clécius Coser, embora sendo ainda um artista muito jovem, com um longo caminho a percorrer, demonstra possuir um estado de compulsão para criar que o levará, no futuro, a construir uma obra destinada a permanecer.
Ponto de fusão
Olney Kruse
Membro da ABCA — Associação Brasileira de Críticos de Arte
São Paulo, 22 de agosto de 1993
A primeira vez que vi a Amazônia do alto de um avião fiquei surpreso ao descobrir que a abstração é uma realidade. Ainda a bordo de um avião descobriria que os fertilíssimos campos de alimentos plantados pelos gaúchos no Rio Grande do Sul — e também os outros no Japão, Estados Unidos e Europa — são inequívocos quadros abstratos. E o que dizer das fotos feitas por astronautas e dos filmes da NASA revelando céus, marés, nuvens, tornados, todos eles revertidos em paisagens imaginárias vistas com brilhantismo nas pinturas do mestre Manabu Mabe? Já descobri: a realidade é abstrata. E a abstração é real.
Estava faltando juntar, unir, agregar a realidade à abstração. E não é que isso foi obtido por um jovem gaúcho de temperamento forte, doce e decidido, que trabalha como operário obcecado pela ideia de beleza, chamado Clécius Coser?
Seu ponto de partida é o mesmo de todo escultor contemporâneo, consagrado ou não, brasileiro ou estrangeiro, voltado para o mestre maior, aquele certo Henry Moore. E também por influência direta de Barbara Hepworth, revelada ao Brasil nas muitas lições inesquecíveis de arte moderna que a Bienal de São Paulo nos deu, indelevelmente.
Clécius Coser poderia ser mais um dos milhares de fazedores de pesos de papel para mesas de executivos, expostos como escultura em galerias de arte e lojas de úteis-fúteis espalhadas pelo Brasil afora. Mas — aleluia — não é.
Como tem ideias muito bem definidas e conhece profundamente as leis escultóricas, este nosso inquieto artista também sabe ser monumental numa obra de apenas dez centímetros de altura. Conhecedor das leis misteriosas do movimento dinâmico em um objeto estático, ele faz o que quer da junção sensualíssima entre o vegetal e o humano, entre o abstrato e o figurativo — naquele exato momento em que, imerso no surrealismo, consegue fazer brotar de um seio o corte longitudinal de um feijão. Ou a folha interligada à nádega. Ou o vazio fundido numa asa de anjo.
Sempre vivendo ao lado da natureza, pisando sobre a terra e abrindo suas janelas para o verde que abunda em seu lar — que maravilha, seu estúdio em Piraquara, ao lado de Curitiba — Clécius Coser vive com esplendor seu ritual bíblico e humano. É da terra que ele retira os granitos e os mármores brasileiros belíssimos, brancos, azuis, rosas, negros, beges, marrons, e com eles faz os frutos da terra. Que podem ser vegetais, animais, humanos, neles incluídos os golfinhos, esses pássaros do mar que voam sobre a água como amigos do homem.
Às vezes a arte produzida por este homem de índole familiar, que vive feliz ao lado de sua mulher Cristina e dos filhos Katilla, Guilherme e Rafael, é uma arte intencionalmente utilitária. Surgem então mesas, aparadores, prateleiras — e o resultado é igualmente perturbador.
Clécius Coser não discursa nem tergiversa: trabalha. Seu tempo é um trabalho gigantesco que o torna um mestre — sou cuidadoso no uso dessa palavra — da escultura brasileira. Já conseguiu, com indiscutível competência e criatividade, um estilo próprio, tão difícil de ser alcançado, já que nada há de novo sob o sol. Pois o que é o novo senão o antigo repensado?
Clécius Coser já produziu quase mil obras e sabe que a sobrevivência de sua arte deve ser acoplada à arquitetura, ao urbanismo e aos profissionais que vivem em torno disso. Esse olho arguto, esse talento avassalador, essa acuidade são coisas de gênio. Não exagero.
A relação entre o ser e o mundo
Alberto Beuttenmüller
Diretor técnico do Paço das Artes, membro da AICA e da ABCA
10 de setembro de 1987
O grande problema da escultura é a relação entre o objeto e o espaço. Esta relação leva-nos a algo mais profundo: o confronto entre o Ser e o Mundo. Quando ela não se resolve com harmonia, há um mal-estar no artista moderno, e no escultor em particular, justamente por não se reconhecer na obra, por não se integrar no mundo.
Assim, criam-se duas vertentes na escultura moderna: aqueles que seguem o caminho da escultura clássica, sempre segura no seu dominar da forma sobre o espaço; e aqueles que passam para o lado oposto do classicismo, cultores do não-limite, da quarta dimensão, exibidores da exiguidade, do minimalismo. Este último grupo é o mais contemporâneo, resultando em artistas como Giacometti, cujo objeto define um instante, já que trabalha com o tempo, ou Calder, que fez da relação objeto-espaço, ou Ser-Mundo, um jogo, uma saída lúdica para este problema fundamental.
Clécius Coser, escultor gaúcho que vive no Paraná, procura solucionar tal problema no limite entre a forma e o informal, entre o abstrato e o figurativo. A escultura brasileira vive este impasse — por isso não há, neste momento, relações importantes entre escultores que os salões de arte nos digam.
Coser nos parece uma revelação artística da geometria, com cortes abruptos na forma, além de elementos vazados. Aos poucos iniciou um diálogo com o figurativo, um confronto entre a realidade e a abstração dos contemporâneos, pois precisa queimar etapas, ora resvalando para uma arte moderna já classificada, quase clássica, do formalismo, ora fluindo para formas barrocas, criando assim um contraponto entre o real e o imaginário.
Percebe-se por seu aprendizado que Coser acabará descobrindo a plástica do átomo, do fio, do gume, do ponto. Suas superfícies são recortadas em alguns pontos, para o contraponto com outras lisas, criando uma dinâmica na superfície de suas peças.
Coser é, pois, uma revelação de escultor consciente do seu ofício, lutando com o mármore para a realização maior de seu Ser no mundo. Esta projeção do Ser começa a agigantar-se pelo conhecimento da problemática contemporânea da escultura. Se Michelangelo disse “Parla” para uma de suas esculturas realistas, Coser busca dizer “silencia”, para tornar-se um escultor contemporâneo em plenitude.

Mármore · 110 × 43 × 24 cm
Curitiba / Paraná / Brasil